Friday, May 26, 2006

A Caridade e a Justiça

" A Caridade e a Justiça

No topo do calvário erguia-se uma cruz,
E pregado sobre ela o corpo de Jesus.
Noite sinistra e má. Nuvens esverdeadas
Corriam pelo ar como grandes manadas
De búfalos. A Lua, ensangüentada e fria,
Triste como um soluço imenso de Maria,
Lançava sobre a paz das coisas naturais
A merencória luz feita de brancos ais.
As árvores que outrora em dias de calor
Abrigaram Jesus, cheias de mágoa e dor,
Sonhavam, na mudez hercúlea dos heróis.
Deixaram de cantar todos os rouxinóis.
Um silêncio pesado amortalhava o mundo.
Unicamente ao longe o velho mar profundo
Descantava chorando os salmos da agonia.
Jesus, quase a expirar, cheio de dor, sorria.
Os abutres cruéis pairavam lentamente
A farejar-lhe o corpo; às vezes, de repente,
Uma nuvem toldava a face do luar,
E um clarão de gangrena, estranho, singular,
Lançava sob a cruz uns tons esverdeados.
Crocitavam ao longe os corvos esfaimados.
Mas passado um instante a Lua branca e pura,
Irrompia outra vez da grande névoa escura,
E inundavam-se então as chagas de Jesus
Nas pulverizações balsâmicas da luz.

No momento em que havia a grande escuridão
Cristo sentiu alguém aproximar-se, e então
Olhou e viu surgir, no horror das trevas mudas,
O covarde perfil sacrílego de Judas.
O traidor, contemplando o olhar do Nazareno,
Tão cheio de desdém, tão nobre, tão sereno,
Convulso de terror, fugiu... Mas nesse instante
Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
Que bradou:
-É chegado enfim o teu castigo!
O traidor teve medo e balbuciou:
-Amigo, que pretendes de mim? Dize, por quem esperas? Quem és tu?
-“O Remorso, um caçador de feras
Disse o gigante. Eu ando há mais de seis mil anos
A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,
Do traidor, do ladrão, do vil, do celerado;
E depois de as prender tenho-as encarcerado
Na enormíssima jaula atroz da expiação.
E quando eu entro ali na imensa confusão
De tigres, de leões, d’abutres, de chacais,
De rugidos febris e de gritos bestiais,
Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto:
Caim baixa a pupila e vai deitar-se a um canto.
E quando em suma algum dos monstros quer lutar
Azorrago-o com a luz febril do meu olhar,

Dando-lhe um pontapé, como num cão mendigo.
Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!”

Como um preso que quer comprar um carcereiro,
Judas tirou do manto a bolsa de dinheiro,
Dizendo-lhe:
-Aqui tens, e deixa-me partir...
O gigante fitou-o e começou a rir.
Houve um grande silêncio. O infame Iscariote,
Como um negro que vê a ponta dum chicote,
Tremia. Finalmente o vulto respondeu:

“Judas, podes guardar esse dinheiro; é teu.
O ouro da traição pertence-lhe ao traidor,
Como o riso à inocência e o aroma à flor.
Esse ouro é para ti o eterno pesadelo.
Oh! Guarda-o, guarda-o bem, que eu quero derretê-lo,
E lançar-to, gota a gota, inexoravelmente,
Em cima da consciência, a pútrida, a execrável!
Com ele hei de fundir a algema inquebrantável,
A grilheta que a tua esquálida memória
Trará, arrastará pelas galés da História,
Durante a eternidade ilimitada e calma.
Essa bolsa que aí tens é o cancro da tua alma:
Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso,
Como a lepra nojenta ao peito do leproso,
Como o ímã ao ferro e o verme à podridão.
Não poderás jamais largá-la da tua mão!
És traidor, assassino, hipócrita, perjuro;
A tua alma lançada em cima dum monturo
Faria nódoa. É tudo que há de mais vil,
Desde o ventre do sapo à baba do réptil.
Sai da existência! Dize à sombra que te acoite.
Monstro, procura a paz! Verme, procura a noite!
Que o Sol não veja mais um único momento
O teu olhar oblíquo e o teu perfil nojento.
Esse crime, bandido, é um crime que profana
Todas as grandes leis da consciência humana,
Todas as grandes leis da vida universal.
Esconde-te na morte, assim como um chacal
No seu covil. Adeus, causas-me nojo e asco.
Deixo dentro de ti, Judas, o teu carrasco!
És livre; adeus. Já brilha o astro matutino,
E eu, caçador feroz,, cumprindo o meu destino,
Continuarei caçando os javalis nos matos.”

E dito isto, partiu a procurar Pilatos.

Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada
Judas, ficando só, meteu-se pela estrada,

Caminhando ligeiro, impávido, terrível,

Como um homem que leva um fim imprescritível,

Uma idéia qualquer, heróica e sobranceira;

De repente estacou. Havia uma figueira

Projetando na estrada a larga sombra escura;

Judas, desenrolando a corda da cintura,

Subiu acima, atou-a a um ramo vigoroso,

Dando um laço à garganta. O seu olhar odioso

Tinha nesse momento um brilho diamantino,

Reto como um juiz, forte como um destino.


Nisto ecoou através do negro Céu profundo
A voz celestial de Jesus moribundo,
Que lhe disse:
- “Traidor, concedo-te o perdão
Além de meu carrasco és ainda o meu irmão.
Pregaste-me na cruz é o mesmo, fica em paz,
Eu costumo esquecer o mal que alguém me faz.
Eu tenho até prazer, bem vês, no sacrifício.
Não te cause remorso o meu atroz suplício,
Estes golpes cruéis, estas horríveis dores;
As chagas para mim são outras tantas flores!”

Judas fitou ao longe os cerros do calvário,
E, erguendo-se viril, soberbo, extraordinário,
Exclamou:
- “Não aceito a tua compaixão.
A Justiça dos bons consiste no perdão
Um justo não perdoa. A justiça é implacável,
A minha ação é infame, hedionda, miserável;
Preguei-te nessa cruz, vendi-te aos Fariseus
Pois bem, sendo eu um monstro e sendo tu um Deus,
Vais ver como esse monstro, ó pobre Cristo nu,
É maior do que Deus, mais justo do que tu;
A tua caridade humanitária e doce,
Eu prefiro o dever terrível!” E enforcou-se. "
Guerra Junqueiro


Guerra Junqueiro. Poeta português de qualidade. Só conheço um livro dele: " A Velhice do Padre Eterno". Infelizmente para ti, eu duvido que vás encontrar esse livro em alguma loja. Eu o tenho devidamente copiado e seguro no PC...

Tuesday, December 13, 2005

Perfume de Mulher

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Ótimo filme, esse. Em "Perfume de Mulher" ( Scent of a Woman ), Charlie deve cuidar do inicialmente insuportável coronel Frank Slade, um militar aposentado cego. Durante uma viagem para os EUA, os dois tornam-se amigos, e, no final desta viagem, ambos terão aprendido lições muito importantes. Realmente um ótimo filme. Mereceu minha nota "10" no IMDb.

Thursday, October 20, 2005

Sobre o Referendo...

Já mandei isso por e-mail a meus contatos. Eis o texto na íntegra, são apenas minhas opiniões sobre o referendo de domingo:


Muito bem, depois de tanta polêmica, resolvi eu mesmo transmitir minhas opiniões sobre o referendo. Caso interesse tanto assim, eu sou a favor do NÃO, mas vamos lá:

1 – Um pouco de lógica, para começar. Então a quantidade de bandidos NÃO vai aumentar com a vitória do SIM? Tudo bem, os marginais não raciocinam: eles não consideram que a probabilidade de eles “se darem bem” num assalto é bem maior contra uma vítima desarmada do quê com uma armada. Resumindo: eles têm a inteligência de uma samambaia plástica, e ninguém será impulsionado por esse significativo aumento de chances.

2 – Fugindo um pouco ao tema da violência – e voltando ao referendo - , você está pronto à desistir do seu DIREITO de portar uma arma? Tudo bem, você pode a qualquer momento desistir de seus direitos por qualquer motivo. Mas pense bem: você têm o direito de proibir os outros de fazerem essa escolha? Óbvio que não! Segundo o caro colega Julien, isso equivale a dizer que essa pessoa pacífica que desistiu do seu direito de TER uma arma também teria os direitos violados caso um meliante qualquer invadisse sua casa e o matasse. Analisando a situação ( sob um ponto de vista lógico, segundo Descartes, como diria o sábio prof. Elias Nascimento ), responda: caso o SIM ganhe e os direitos dos que votaram NÃO sejam violados, o SIM poderia ser devidamente preso e condenado, como o “pacato cidadão” acima? Aaaaaah, agora estamos chegando no ponto em que eu queria... Moral da história: Quando você tenta interferir no direito dos outros, você acaba demolindo “democracias” frágeis como a nossa ( que OBRIGA os cidadãos a exercerem o seu DIREITO de votar ).

3 – Ah, voltamos ao clássico caso do marido ( namorado, sei lá ) traído. Novamente, estou SUPONDO que o amante e a namorada em questão sejam seres devidamente inteligentes – ou seja, eles se juntaram, decidiram que iam enfeitar a cabeça do nosso trágico herói e, claro, consideraram o risco de que tal situação pudesse acontecer. Concluindo: Quando pessoas ( supostamente ) inteligentes o suficiente para pesar as consequências de seus atos decidem arriscar, devem assumir a responsabilidade caso FALHEM. Se preferir: se vai sacanear alguém, esteja certo de que pode peitar a situação. Ou ainda: se você foi burro o suficiente para tentar sacanear alguém e foi pego, você definitivamente mereceu aquelas balas no peito.

4 – Não confundam – votar NÃO não significa que comprar armas se tornará MAIS FÁCIL ( como se fosse assim tãaaaao fácil... ), significa apenas que “um cidadão respeitado” terá o DIREITO de comprar uma se assim quiser e estiver preparado. Com isso tudo, concluímos: Votar no NÃO não garante que os crápulas terão mais facilidade ao comprar armas.

5 – Não vejo ONDE o quê os fabricantes de arma pensam vai influir em alguma coisa. Nós não estamos votando contra ou a favor de fabricantes de armas ( tudo bem, se você preferir, eu completo: não diretamente. Feliz? ) , mas sim tentamos manter um direito nosso. Moral da história: Argumentos infelizes não convencem ninguém. Certo, os fabricantes de armas lucrarão mais no caso do NÃO ganhar. “E AÍ?”, como diria um certo conhecido. Não estamos interessados nos fabricantes de armas e sim em NÓS, NOSSA SEGURANÇA e NOSSAS FAMÍLIAS.

6 – É óbvio que iremos culpar as armas – afinal, elas atiram sozinhas, não é mesmo? – pelos infelizes acidentes com crianças. A culpa não é NEM UM POUCO dos pais que guardam suas armas em lugares seguros e descarregadas, obviamente. Moral da história: Os seres humanos são perfeitos e nunca cometeriam o erro de deixar uma arma ao alcance de uma criança. Na verdade, as armas têm vontade própria e saem com as próprias pernas daquele armário quase na altura do teto e vão ficar o mais próximas possível das crianças. A propósito, por ninguém nunca fez um referendo contra remédios ou desinfetantes?

Eu não espero que vocês votem “1”. Eu apenas peço que ponderem. Não tomem decisões banalmente influenciados por “aquela revista”, ou “aquele ator”. Pensem sobre tudo isso. Juntem as informações “dessas revistas”, “daquele programa”, e ( eu ficaria feliz se assim fosse ), daqui. Jamais deixem-se influenciar, tirem suas próprias conclusões. Não, eu não gosto de armas de fogo. Elas reduziram o mundo a uma coisa mesquinha e covarde. Veja o quê aconteceu com as guerras, por exemplo. Não há mais bravura ou honra numa guerra, apenas morte e covardia. Quanto aos “direitos humanos é o caralho” citado por alguns e-mails que tenho recebido, sou obrigado a concordar com a frase em gênero, número e grau. Só bandidos têm direitos humanos. As vítimas deixaram de ser vítimas. O criminoso é um coitadinho que cresceu num ambiente desfavorável e “famílias desestruturadas” ( parafraseando uma certa professora de redação ). As vítimas é que tem culpa, de estarem no local errado, na hora errada. Têm coisa mais óbvia? Quanto à hipocrisia... Ela só está aí nos “direitos humanos”. No dia em que esses bravos defensores do bem e da paz sofrerem sob a violência ( ou suas famílias ) eles mudaram de lado rapidamente. Agora um toque esdrúxulo, direto de “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess ( quem já leu vai entender essa última ) : “Hipócritas de KAL”.

Thursday, September 01, 2005

Ladainha dos Quatro Santos

"Ladainha dos Quatro Santos
Alphonsus de Guimaraens

Santa Maria, Mãe de Jesus,
Que com as asas protetoras cobres
Os que têm frio, rotos e nus,
Ora pro nobis.

Santo José, pobre carpinteiro,
Que eras tão pobre entre os que eram pobres,
De enxó na mão, Santo verdadeiro,
Ora pro nobis.

Santo Jesus, meu bom Protetor,
Que nos teus grandes olhos encobres
O céu, Cordeiro e também Pastor,
Ora pro nobis.

Santa Morte, afinal, cujo nome,
Ouvido aos sons dos últimos dobres,
Será o consolo dos que têm fome,
Ora pro nobis."
Lindo poema. Alphonsus é um grande poeta. Acabo de ter um calafrio.

Wednesday, August 10, 2005

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O Grito, the Edvard Munch.

Saturday, August 06, 2005

Mais Alphonsus

Mais poesia simbolista...
"Presságios
Alphonsus Guimaraens
"Um esqueleto de mantilha
Que passa pela minha porta...
(Um velho diz) é minha filha
Que vai morrer ou que está morta!"

"Um esqueleto agonizante
Que passa pela minha porta...
(Um moço diz) é minha amante
Que vai morrer ou que está morta!"

Outro: "Se és tu, meu pobre amigo,
Que passas pela minha porta!"
"Se és tu, meu pai, eu vou contigo..."
"Se é minha mãe, ó Deus, que é morta!"

Nenhum de nós, porém, ao vê-lo
(Quem se não julga rijo e forte?)
Dirá que o horrendo pesadelo
Nos anuncia a própria morte..."
Não sem motivo estou colocando esta poesia. Provavelmente haverão mais, inclusive. Comprei a obra-completa de Alphonsus de Guimaraens. Se você está querendo conhecer um bom poeta e está disposto a pagar caro... Compre.

Tuesday, August 02, 2005

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Hoje não escreverei nada...
"O deus-verme
Augusto dos Anjos
Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!"
Muito bom, não?